Colheita de Lúpulos da Cervejaria Patagonia 2019

Fazenda de Lúpulos da Cervejaria Patagonia

Em 2018 eu recebi um convite da Cervejaria Patagonia pra participar da Cosecha de Lúpulo lá na Argentina. Fiquei extremamente feliz, até ler novamente o email e perceber que as datas era exatamente as mesmas do Festival Brasileiro da Cerveja em Blumenau. Com muita dor no coração eu tive que recusar o convite, afinal eu estava com tudo certo pra lançar meu livro nesse ano no Festival.

A gente te convida ano que vem, não se preocupe“, disseram eles. Isso ficou marcado na minha cabeça. Não é sempre que aparece uma viagem como essa. O ano passou, e próximo a data da nova colheita, na mesma época em que eu havia recebido o primeiro convite, comecei a ficar de olho na caixa de entrada do meu email. “E aí, será que vão me convidar dessa vez como prometeram?“, pensava eu tentando controlar a ansiedade.

Mas a data ficou muito próxima até que eu desisti. Foi quando, um dia sem eu esperar, chega o bendito convite. Eu nem queria saber se dessa vez as datas coincidiriam ou não. Topei na hora e já fui treinando meu castelhano perdido com o tempo sem prática.

Para minha surpresa fiquei sabendo que apenas duas pessoas no Brasil foram selecionadas pra essa viagem, eu e o Leonardo Abreu, chef de cozinha e Youtuber. Clica aqui e segue o canal do cara que ele faz uns rangos sinistros. Junto com a gente foi a Fernanda Dornelles, da Agência Guru 360, e a Nathalia da Patagonia Brasil. Elas duas foram dando toda assessoria e suporte pra gente.

Rolê em Buenos Aires

Bom, na data combinada, nos encontramos no Aeroporto e seguimos para Buenos Aires. Chegamos pelo horário do almoço e tínhamos a tarde livre por lá. A programação era pegar o voo para Neuquén na madrugada do dia 08 para 09 de março. Sendo assim, saímos para explorar Buenos Aires com a intenção de voltar cedo para o hotel.

Rolêzin em Buenos Aires com o Leo e a Fê

Nesse momento estávamos só eu, o Leo e a Fe. A Nati chegaria mais tarde. Demos um baita rolê pela cidade e já nos considerávamos como “amigos de infância”. O entrosamento foi quase que momentâneo e por isso a viagem foi muito mais divertida e prazerosa. Comemos empanadas, tomamos umas cervejas locais e fizemos uma espécie de pub crawl até terminarmos a noite, super animados, no Refúgio Patagonia, o bar da marca. Que lugar sensacional. Bem grande, com várias mesas espalhadas por mais de um ambiente, um grande balcão onde serviam os vários estilos da marca e no fundo uma bela Parilla Argentina que, obviamente, não poderia faltar.

Refugio Patagonia em Buenos Aires

Foi legal provar alguns estilos que ainda não vêm pro Brasil, ainda mais in loco e saboreando aquelas delícias que saíam da parilla. Tudo estava tão bom e animado que nem demos conta do horário.

Chegamos no hotel por volta da meia noite e tínhamos que acordar as 2h30 da manhã. Pois é, acho que a gente se empolgou um pouco. Despertador tocou e a sensação foi de que apenas pisquei. Levantei, me encontrei com o pessoal no saguão do hotel e pegamos o ônibus para o aeroporto. Nos encontramos com o restante do grupo. Tinham funcionários da Patagonia Argentina e também de outros países da América do Sul.

Pegamos o voo para para Neuquén, cidade mais próxima à Fernandez Oro, local onde está a fazenda de lúpulo, ou como eles chamam, Chacra de Lúpulo. Eu não sabia muito bem como seria a programação e estava ansioso pelos dois dias que viriam pela frente.

Chacra de Lúpulo

Chacra de Lúpulo

A Chacra de Lúpulo está localizada em uma pequena cidade chamada Fernandez Oro, a 450km de Bariloche, que faz parte da província de Rio Negro, que por sua vez está na região da Patagonia.

Café da Manhã (Foto: Jerónimo Poklepovich Caride)

Chegamos cedo e um super café da manhã já estava a nossa espera. Éramos um grupo grande e diverso. Os únicos brasileiros ali éramos nós quatro, o que acabou virando quase uma atração pra eles. Tomamos café, nos enturmamos e logo chegou a Sol, sommelière da marca, e o Ratti, cervejeiro. Eu os conheci quando vieram ao Brasil em 2017 e fizemos uma viagem juntos para Curitiba e Morretes. Escrevi sobre a viagem na época, clica aqui pra ler.

Ratti (Cervejeiro), Sol (Sommelière) e Eu

A cerveja surpresa

Batemos um papo e a Sol e o Ratti logo assumiram seus postos convidando todos os presentes para uma degustação e apresentação de algumas cervejas. Nos deram as boas vindas e depois de provarmos duas cervejas fui surpreendido com o Ratti me chamando pelo microfone para comparecer a frente com eles.

Ficha de degustação e análise sensorial de cerveja

Na hora me deu um frio na barriga e eu gelei. “O que será que o Ratti vai me aprontar”, pensava desesperado enquanto caminhava envergonhado para frente de todos. Ele me apresentou pra galera e disse que eu fazia parte da história da próxima cerveja que iríamos provar. Na hora eu fiquei confuso. Pegamos os copos cheio dela e então ele começou a contar a história da Vera IPA, uma New England IPA com 5,8% de teor alcoólico e 35 IBU.

Vera é o nome da filha do Ratti e na época em que estávamos no Brasil, na viagem que citei ali em cima, enquanto tomávamos uma cerveja, o celular do Ratti tocou. Ele saiu para atender e depois de alguns minutos voltou emocionado com os olhos cheios d’água dizendo que tinha acabado de saber que seria pai. Nessa noite comemoramos muito pelos bares de Curitiba. Depois que a Vera nasceu ele fez essa cerveja em sua homenagem. Legal demais, né? A Vera IPA hoje é uma cerveja premiada.

O Acampamento

Depois desse momento emocionante, ficamos por ali tomando umas cervejas e seguimos para conhecer nosso acampamento. Começamos a adentrar nas plantações de lúpulo e eu já não estava entendendo nada. Até que de repente aparece um grande acampamento no meio de uma das fileiras de lúpulo. Várias barracas, alinhadas e numeradas. Tudo muito organizado, com mesinhas na frente de cada barraca. Cada barraca abrigava duas pessoas. E a última de uma das fileiras era minha e do Leo.

Interior da nossa barraca (Foto: Jerónimo Poklepovich Caride)

Entramos e já tinham duas camas com colchão, saco de dormir, uma manta térmica, e uma mochila pra cada. Abrimos a mochila e dentro tinha uma camisa da Patagônia, uma toalha, uma caneca de agata lindona, um bloco de notas, caneta, uma garrafinha de alumínio e uma necessaire. Dentro da necessaire tinham produtos de higiene pessoal como cremes, escova de cabelo, escova dental, shampoo, sabonete de lúpulo, e mais outras coisas. E era tudo nosso. Tudo presente. Que alegria!

As barracas por Drone (Foto: Jerónimo Poklepovich Caride)

Depois de ambientados e instalados, fomos almoçar. Um almoço ao ar livre em uma grande mesa comunitária. Cordeiro patagônico feito no fogo de chão e mais outras delícias. Tudo regado às cervejas da Patagonia. As torneiras ficavam liberadas pra gente beber sempre que desse sede.

Acampados no meio da plantação de lúpulos

A Colheita

Depois de uma pequena siesta seguimos para a colheita de lúpulo tão esperada. O lúpulo, para quem não conhece, é uma trepadeira que cresce bem rápido podendo alcançar a altura de 6 metros. Ele é da família das canabáceas, ou seja, prima da maconha. Mas não se anime tanto porque ela é só parente e não tem nenhum dos princípios ativos da prima. A título de curiosidade, as variedades de lúpulos produzidos ali na Patagonia são Nahuel, Mapuche, Victoria, Nugget e Traful.

A plantação é feita quase num estilo de parreiral. Eles cravam grandes postes de madeira e esticam uma corda entre eles como um varal, na parte mais alta. Depois amarram várias cordas do chão até a outra corda que está na parte de cima, e é por ali que o lúpulo irá se agarrar para crescer. Na hora da colheita um trator segue entre as fileiras. Um funcionário vai na frente cortando a corda na parte de baixo enquanto outros dois vão na parte de trás, na caçamba puxada pelo trator, cortando a ponta de cima e jogando na caçamba.

Colheita de lúpulo

A gente teve a oportunidade de subir na caçamba para participar. Todos devidamente equipados com EPI (Equipamento de Proteção Industrial). Óculos, proteção para os pés, luvas e camisa de manga comprida, afinal a trepadeira do lúpulo é cheia de pequenos espinhos que podem machucar. Participar desse momento foi incrível.

Bora colher lúpulo

Feito isso, os lúpulos seguem para um grande galpão onde vão separar os cones do resto da planta. O que interessa mesmo são os cones e os óleos essenciais que eles carregam. São eles que darão o amargor que tanto queremos na cerveja. Nessa segunda parte a gente também participou e vou te dizer, que trabalheira danada. Mas no final vem aquela sensação boa e gratificante de estar fazendo algo que em algum momento fará a alegria de uma pessoa quando entornar um belo copo de patagonia.

Hora de separar os cones de lúpulo

Uma noite memorável

Voltamos pro acampamento, tomamos banho e nos preparamos para a festa da noite. Rolou um jantar incrível no meio da plantação de lúpulo. O mais louco é que tudo isso não é aberto ao público. Fazem apenas uma vez por ano e eu estava ali, como convidado, tendo o privilégio de vivenciar aquela experiência maravilhosa. Depois do jantar fomos surpreendidos por um show e muita cerveja. Alguns funcionários da Patagonia subiram no palco e mostraram que também tem talento. Que noite, meus amigos. Que noite.

O jantar

Fui pra barraca e capotei. A noite faz muito frio, mas os sacos de dormir e a cobertinha térmica deram conta do recado. Acordamos com o café da manhã na porta da barraca. Eita, que mordomia boa. Arrumamos nossas coisas, e ficamos na área comum esperando o brunch final e depois o ônibus que nos levaria de volta para o aeroporto.

Essa turma é demais

Esses momentos são sempre difíceis, afinal você passa dias intensos com pessoas incríveis e de repente vão todos embora. Mas é isso que vale a pena na vida, viver essas experiências, aprender e desfrutar o que há de melhor nelas. A cervejaria Patagonia me trouxe tudo isso, grandes amigos e vivências inesquecíveis.

Salud!

Edson Carvalho

About

Um viajante tão apaixonado por cervejas artesanais que rodou o Brasil inteiro atrás delas e agora dá dicas de onde encontrá-las.

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